Ainda Cometo um Samba, o processo

AINDA COMETO UM SAMBA – Um romance entre bibliotecas e botequins

por Walner Danziger

Jamais sentei para escrever um livro. Perigoso. Escrevo histórias e se elas futuramente serão ou não publicadas, só o tempo e as circunstâncias irão dizer. Não é do calendário o compasso que determina a escrita de um novo livro. Muito menos o da vontade racional. Livro é ponto de amadurecimento pessoal, mudança de fase, virada de ciclo, ebulição. Um texto mais ligeiro como um pequeno artigo, um conto, uma crônica, sim, o escriba mais ou menos calejado pode tomar assento e no ato, sem piedade, batucar o teclado ou deslizar a esferográfica sobre o papel e foi o que fiz numa tarde fria, dia incerto do mês de julho de 2011.

Argumento para um conto, uma narrativa curta, daquelas que gosto de escrever e como de costume, peguei da caneta depois de curtido o enredo no bom e velho caldeirão. Começo, meio e principalmente o final bem afiados e tudo seria simples: Um homem muito forte e popular na vizinhança é preso na madrugada depois de promover um quebra quebra na própria casa. Os motivos do ataque de fúria são desconhecidos e o fato desperta surpresa, uma vez que o “baderneiro” carrega fama de pacato. Ao final da história descobre-se que o ataque do gigante se deve ao fato de possuir pés femininos por conta da esposa manicure/pedicure e descoberto pelos colegas de trabalho, tornar-se alvo de chacotas e provocações.

Tudo planejado pra dar cabo do conto nas costumeiras duas, três páginas mas quando me liguei, bati a décima oitava página e a cavalgada era intensa, passadas largas e não conseguia, melhor, não sentia a menor vontade de puxar as rédeas e brecar a história. Dezoito páginas e só agora o homem foi liberado da delegacia, posto em liberdade ainda na madrugada, sozinho e foi aí que as coisas fugiram ao controle. Tem a mão do criador que planeja e conduz, mas nesse ponto, meu personagem Alex, solitário e sem destino, decidiu-se e despudoradamente soprou em meu ouvido: Mano, não quero voltar pra casa.

O personagem determinou que a história não pararia e o “samba” , que não existia na idéia original, achegou-se e do papel de inexistência, passou a tema, à costura, elo de ligação entre todas as tramas do livro.

Ao criar a Escola de Samba, onde personagens e tramas girariam, a primeira decisão, óbvia até, foi a de que não poderia falar de uma escola real e aí, minhas andanças e batucadas por várias escolas facilitaram o trabalho. A Escola “inventada”, (Unidos da Lira), puxou consigo bairros e logradouros de uma cidade também fictícia. Uma cidade grande com suas delícias e tragédias como muitos de nós conhecemos como a palma da mão ou ouvimos falar.

Não posso dizer que temia o romance, mas tinha, talvez, respeito excessivo pelo gênero. Faltava fôlego e técnica pra alguém sempre acostumado às narrativas curtas, quer na prosa na dramaturgia.

Tudo que sei de literatura, aprendi lendo e escrevendo e sabia, naquele momento, que tinha nas mãos uma narrativa mais robusta pra encarar e tudo que fiz, foi desfraldar mais algumas velas e tocar minha embarcação.

Organizei minimamente uma sequência de capítulos, personagens e sugestões de enredos e como de costume, despejei tudo no papel, sem freio, sem medida e assim foi até o dia 01 de fevereiro de 2012 quando concluí a história, uma massa bruta, desforme e sabia disso porque não volto no texto nem leio o que escrevi na véspera. Trabalho sempre com “ganchos” que anoto e deixo pra trabalhar a partir deles no dia seguinte.

A história saiu. Num jorro. Um vômito.

E a partir daí seguiu-se o que faço em maior ou menor escala com tudo que escrevo: alternar períodos de hibernação com lapidação. Ponho o texto pra dormir. Engaveto o bicho pra depois voltar a ele. Ler, escrever, cortar, enxugar, alterar a ordem dos parágrafos e nesse caso, pela primeira vez, inverter e excluir capítulos.

Meses depois, entreguei o primeiro tratamento, a primeira versão da história para que as amigas Daiana Arruda e Roberta Viana, íntimas dos meus escritos e de minhas andanças, lessem e dessem suas impressões e foram essas primeiras opiniões que ratificaram meu desejo de, agora sim, publicar o romance.

Amigos são passionais e suspeitos. Claro. Mas será a eles, sempre, que poderei confiar minhas inspirações e meus pertences.

O romance foi todo escrito em casa, no Jabaquara e as mudanças de ambiente limitaram-se às pequenas viagens do notebook da escrivaninha à mesa da cozinha. Araci de Almeida, minha dálmata, em volta e o rádio sempre sintonizado no noticiário, exceção feita no último dia, na redação do capítulo final, quando substitui o grave dos locutores do AM, pelos sambas e a voz chinfrim de Noel Rosa.

Após a 1ª versão, a leitura amiga e novo descanso, era hora de sair, hora de levar a história para passear e foi o que fiz entre a 2ª e a 10ª versão (foram dez, os tratamentos) do livro.

Tirei o romance da máquina porque preciso do papel. Do calor, da textura, do cheiro do papel. Necessito virar páginas, rasurar, ver as folhas amarelando, encardindo, manchando de gordura, café e poluição. A história respirando, quer no silêncio catedrático das bibliotecas ou no alvoroço dos botequins. Pra lá levei meu romance, pra vibração dos ambientes sem temer os ruídos.

Entre a sétima e a décima versão, os amigos Luciano Alves, Willian Delarte e Sonia Regina Bischain entraram em cena e foram de fundamental contribuição. Luciano, amigo, designe e diagramador há tempos dos meus trabalhos, nos livros ou nas fotos e material gráfico de minhas peças de teatro. Discutimos e reafirmamos o conceito do livro. Willian leu os originais e trocou comigo inúmeros e-mails, sempre recheados de comentários sobre a trama e seus personagens. Sonia topou qualificar o livro, escrevendo o texto da contracapa.

Se minhas janelas se abrissem para Pinheiros ou Sumaré, Recreio ou Lagoa Rodrigo de Freitas, se minhas janelas se abrissem para algum vilarejo nos arredores de Paris ou Tókio, até mesmo para algum bairro gelado de Moscou, minha paisagem, minha verve e meus personagens provavelmente seriam outros. Como outros, os assuntos, os conflitos, muito embora tenha fé que a boa combinação entre violência, sexo, amor, dinheiro e morte, seja universal e excelente combustível para qualquer narrativa ficcional, em qualquer continente.

Preciso falar da minha gente. Só sei falar da minha gente, essa gente mestiça que passa sob minhas janelas. Essa gente está aí, num recorte, num close up, exposta nessa minha antiga obsessão pelo ritmo, pela pegada, pelas histórias breves, coloridas e sombrias pra serem lidas por Dona Maria numa viagem de metrô do Jabaquara ao Tucuruvi e se não der, ok: Ida e volta e estamos conversados, malandragem.

Mais, não digo. São mistérios, intimidades e não carecem explicação ou alarde.

O livro está na praça. Pra ser comungado. Agora é torcer para que ganhe, sem pressa, as imperfeições, o cheiro, a sujeira e a força iluminada das ruas.

 

São Paulo, 09 de outubro de 2013

 

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