ENTREVISTA

 

R – Você não tem nome de suburbano.

 WD – Viu só que ironia? Mas esse nome é meu mesmo, hein! Tá cheio de nego por aí que adora escrever e viver parecido com gringo, né? Mas se você bater nas casas aqui do Jabaquara tá assim de “Jennifers”, “Stefanys”e “Richards”. No meu caso é fatalidade mesmo. Eu até gostaria de ter um nome mais simples…brasileirão. Nem sei se esse nome combina comigo. Olha a minha cara! Combina com o meu nome? Uma vez eu cheguei numa cidade do interior e um cara me disse assim: Nossa! Você é que é o “Ualner”? Com esse nome…Achei que ia chegar aqui na cidade um senhor assim, parecido com o “Dr. Freud”!  Aí chego eu com essa fachada. O que eu posso fazer? Meu avô Otto era alemão e eu carrego o sobrenome dele. Agora do outro lado, meu avô Augusto era negão e minha mãe tinha blackpower, pô. Mas esse nome pra mim é ironia mesmo porque…Logo eu que sou tão apaixonado pelas coisas do Brasil…E olha, não é ufanismo não. Imagina. Como é que eu vou negar os clássicos? Os mestres do jazz? A poética alucinada de um Henry Miller, de um Genet… do Burroughs? O Tom Waits? Tantos… Que é isso. Burrice! Só que pra mim, pro meu espírito e pra minha inspiração como homem e artista, o Pixinguinha fala mais alto que o Chet Baker e o canto da Araci de Almeida me diz coisas que o da Ella Fitzgerald não diz. E isso não é campeonato não. Ninguém é melhor que ninguém. Tudo junto é que é bom. É só questão de gosto, mesmo. Tem caboclo que não suporta samba, ué. Qual o problema? Competição combina com esporte, não com arte. Mas pra fechar, eu não tenho nome de suburbano mas eu escolhi ser suburbano. Eu sou suburbano.

 R- Como é isso?

 WD- A história é comprida mas eu vou tentar resumir. Eu sou filho único de uma professora primária e um tapeceiro, meu pai reformava estofados. Eu não nasci mas sempre morei no subúrbio. No Jabaquara, Vila Campestre. Só que eu dei uma puta sorte porque minha mãe também lecionava num colégio particular no Planalto Paulista, bairro de rico e claro, me encaixou lá. Foi o que me salvou mas me condenou também.  Porque no Jabaquara achavam que eu era filhinho de papai porque estudava em colégio particular mas na escola eu era um dos pobrezinhos. Um, entre os dois ou três que não tinham telefone em casa e pegavam dois ônibus pra chegar na aula. Um choque cultural da porra! Acontece que na adolescência, eu fui pra escola pública e descambei de vez pro lado de cá. Era mais divertido, porra. Só ia pros bailes da zona norte e da leste. Quebrei dente, pulso…Barra pesada mas isso também deixa o cara malandro, ensina a chegar sempre devagar. Quando a gente ia pras matinês na zona sul, era a farra no galinheiro porque a gente bebia pinga e dançava pra cacete. Pô, as patricinhas adoravam. Não o bafo da cachaça…. Mas lógico, elas eram doidinhas pra sacudir e a gente arrastava pra pista mesmo. Os boyzinhos também ficavam doidos. Lambendo os beiços com os braços cruzados e o pezão apoiado na parede. Esse é o estilo daqui até hoje, né? Chegar fazendo barulho. Quebrando tudo sem frescura nem quás-quás-quás. Se a gente não faz barulho, ninguém ouve.

 R- Você defende muito a periferia e os marginalizados…

 WD – Não é só defesa. É exaltação. Ás vezes, denúncia. Mas prefiro a exaltação. Sabe o que tem? O berço. Eu decidi cantar a minha aldeia nas minhas paradas, só isso. Eu sei e gosto de falar de outras coisas mas bom mesmo  é tentar decifrar e mostrar o que é torto, imperfeito… Realmente, o homem feliz, bem sucedido, aquele com cara de boneca e olho azul , que dá certo, me interessa muito pouco. Não dá caldo. Deixa esse pros caras que escrevem telenovela. Se bem que agora descobriram as favelas, né?  Mas tem um outro lado… Apesar da exaltação…Porque tem mesmo toda uma poesia… quando eu vou ao Rio, sento numa daquelas biroscas da Mangueira e fico olhando pro morro, pô… Os caras que passaram por aqui… Eu vejo Nelson Cavaquinho, vejo Noel subindo pra encontrar o Cartola…Tem tudo isso… os quintais, a conversa dos vizinhos, a musicalidade… mas aqui não é o paraíso não. Ta muito longe disso. Tem presepada pra cacete esfregada na sua cara e também tem hora que o saco enche. O suburbano não é só vítima não.

  R- E as tuas influências?

 WD- Eu gosto de coisa pra cacete… mas vou resumir tudo em Noel Rosa. O cara fez mais de trezentas músicas e morreu com 26 anos. Dessas trezentas, uma cacetada delas virou clássico do cancioneiro popular e tocam até hoje. Tem de tudo lá. Tudo aquilo que eu entendo que uma boa obra tenha que ter, seja música, literatura, teatro, o que for: Simplicidade. Tem que ser um bom divertimento. Mas se tiver também poesia e principalmente humor, melhor ainda. A obra de Noel Rosa tem tudo isso e mais um pouco. É assim: Eu, pretenciosamente digo que ambiciono uma obra simples e bonita como um samba do Noel.

  R – E na dramaturgia?

 WD – Dramaturgo eu sempre gostei pra cacete do Plínio Marcos.

 R- Só?

 WD – E não tá bom? Dramaturgo, só. Respeito muito a velha guarda. Os pioneiros, aqueles que colocaram o homem brasileiro em cima dos palcos. Tem também os parceiros de hoje mas eu gosto mesmo de escritor que tem cara. Que marca o seu trabalho, dá personalidade. Aqueles que defendem as suas paradas, defendem o seu estilo sem concessões, sem pagar comédia pra ninguém. Mas gostar, gostar mesmo só do Plínio Marcos. A obra dele é brutal e sobretudo imperfeita, graças a deus.

 R- E o Nelson Rodrigues?

 WD- Ele não é o meu preferido não. Nunca foi. Mas é só questão de gosto.

 R- E por que?

 WD – Talvez porque ele não gostasse de carnaval. Brincadeira… Deixa o Nelson pra lá. Ele já tem súditos pra caramba…

 R – Como começou tua relação com a literatura, com a dramaturgia?

 WD – De casa. Eu sou cria do Círculo do Livro. Lembra? Pois então. Quando tinha sete ou oito anos meus pais me deixavam escolher aquele livro de graça  a que os sócios tinham direito no mês. Eu ia lendo o que caía na mão. Tinha também, claro, os gibis… Turma da Mônica, Pelezinho, Mortadela e Salaminho e o meu predileto que era o Bolinha. Mais tarde Mad e Chiclete com Banana. Ainda tenho meus exemplares da época. Os livros… Lygia Bojunga Nunes, ”A Bolsa Amarela” que eu também guardei, Zé Mauro de Vasconcelos, todos aqueles livrinhos da Ática e por aí vai. Quando tinha nove anos, numa das férias do ano, li “O Retrato de Dorian Gray” do Oscar Wilde e “A Viuvinha” do José de Alencar. Não entendi nada mas pesquei o principal das histórias. A professora quase caiu dura. Eu virei uma referência na sala e isso pra um menino tímido e magricelo era bom. Pois então, como eu lia bastante minhas “composições” saiam bacanas. Então eu me dava bem na escrita. A dramaturgia surgiu obviamente com o teatro. Em 1997 decidi montar o Pixaim e não queria ter mais um grupo que fica montando peça dos outros. Não queria fazer texto de ninguém. Então comecei a escrever as paradas pro grupo. Aliás, acho que só foi mesmo por isso que comecei a escrever direto. Na verdade, pra mim, escrever não é mais que um bom pretexto pra ficar perto dos livros. Ler é muito melhor que escrever. E mais fácil também.

 R- Alguém já relacionou o estilo da sua obra com a do João Antônio.

 WD – Isso é uma merda! Sei lá, fico envergonhado com essas coisas… Olha a grandeza da obra do João Antônio, cara! Sei que não devia me incomodar com essas paradas mas…Não…Não…Nada a ver essa história… Esse papo foi no Rio…Outro dia, aqui em São Paulo, saiu numa matéria comentando uma outra peça minha, alguma coisa assim: “…Na trilha dos malditos como Bukowski e Pedro Juan Gutierrez…” Eu gosto muito desses dois escritores mas acho muita graça porque alguém pega uma, só uma peça tua e por essa peça ele fecha todo um conceito sobre você e te sapeca um rótulo. O cururu lê “Vênus de Aluguel” e compara com Plínio Marcos. Tá. Lê “32 Dentes” e compara com Bukowski. Tudo bem. Só que eu não escrevi só essas duas peças. Eu tô acabando agora uma peça delicada sobre futebol e memória…Aí neguinho pega esse texto e vai comparar com quem? Com o Bukowski de novo? Daí não dá, né? Ficou difícil? Eu escrevi sobre o carnaval (E No Meio de Tudo Havia a Folia). E aí? Quem são os dramaturgos que falam de carnaval e samba? Mas é o seguinte: Primeiro que eu ainda tô começando e não tenho uma obra. Escrevi umas peças e outras coisas. Segundo, é que já reparou como nego adora comparar uma coisa com outra? Parece que é pra mostrar que sabe. Tal filme parece com filme de tal diretor. Tal música lembrou o som de fulano. É sempre assim. Eu tenho muitos defeitos como autor e admito isso. Agora porque as minhas qualidades tem que ser relacionadas com as de outros autores consagrados? Isso eu não quero. No dia rolou essa parada do João Antônio. É bobagem mas ainda bem que foi com ele,né?

 R- E as tuas influências?

 WD – . Poxa… Tudo que tá por aí acaba, de um jeito ou de outro, refletindo no que a gente é ou faz. Você quer uns nomes? Então vou te dar o nome de umas paradas de que eu gosto: Tim (Maia) (sempre), Racionais, Jacksons, Jorge Ben, Candeia, Paulinho (da Viola), Cartola, ouço muito rap…Adoro Lima Barreto, os textos do Mario Prata, os contos do Nei Lopes e as crônicas do Aldir Blanc e do João do Rio, Antônio Fraga… No fundo, no fundo, pra mim, quem resume tudo é Noel Rosa, eu já disse lá atrás. Tem as Escolas de Samba… Também sou um apaixonado pelo rádio. O rádio pra mim é uma loucura. Ouço tudo e só durmo com ele ligado nas notícias. Mas é aquilo: A rua, a mulherada, o futebol mexem muito mais comigo que qualquer literatura. Também sou tarado em prestar atenção na conversa dos outros.

 R- Você, nesse panorama atual da prosa, da dramaturgia, poderia se considerar um outsider?

 WD – O quê? Que é isso? Me respeita! Eu sou é homem, rapaz! (Risos). Mas tem um monte desses por aí, né? Tem uns que depois da noitada vão pra casa tomar sucrilhos com leite que a mamãe preparou lá em Moema ou na Vila Olímpia. Olha, eu sou um escritor. E isso já é o bastante. Um escritor independente. mas isso aí, não (Risos). Os artistas independentes são muito fortes, não precisam ser chamados disso. Você faz as tuas paradas, tem seu público, aquelas pessoas que se identificam com o que você escreve e realiza, compram seus livros e vamos tocando o barco. Você já ouviu falar de um senhor chamado Adão Xalebaradã? Pois é. Ele tá lá no morro do Cantagalo, aleijado e fez mais de quinhentas músicas. Nunca foi gravado no Brasil e ninguém conhece. O Selarón, que fica na Lapa debaixo do sol, pintando os quadros dele e vendendo pra turista? Aquele negão de rabo de cavalo branco que é engraxate e toca aqui na Praça da República e tem sambas com o Germano Mathias? Os caras são artistas. Ponto. A gente tem inquietações e põe pra fora em forma de arte e fim de papo. Só isso. Não tem mais nada. Já imaginou, nego?  Chegar com essa conversa lá no samba ou no Jabaquara? Alô!Alô! Rapaziada: Agora eu sou é “autisáidi”! Tô fodido, malandro! (Risos).

                                                       Continua…

8 comentários em “ENTREVISTA

  1. Salve Walnão!!! Do caralho a entrevista hein! Estou esperando a continuação, hein!!! ” Alô!Alô! Rapaziada: Agora eu sou é “autisáidi”! ” essa foi FODA!
    QUEM É, É! NÉ WALNÃO!?
    SARAVÁ!

  2. Resolvi “subiromorro”, ir mais a fundo e ver o que tem nessas quebradas, logo de cara cheguei e comecei a cantarola… ♫ Na subida do morro me contaram, que você bateu na minha nega…♪♫ (Moreira da Silva / Ribeiro Cunha).
    “Nasubidadomorro”, gosto muito desse nome. Lembra você, um jeito espontâneo, autêntico. É o que é e ponto. A gente reconhece você nas suas falas, não é alguém diferente. Mas que surpreende.
    Até o comportamento denuncia, não tem como disser que não é suburbano, entre outras ações…”como você diz: ouvindo a conversa alheia”… natural de quem vive no morro, na periferia, comunidade, tomar parte de tudo, penso que é , “estar receptivo” ..rsrsrs…
    E a gente ri, aprende…
    Lembrei de Elisa Lucinda – Livro Parem de falar mal da Rotina – “… Gosto de brincar de perceber no outro meu espelho em semelhança e diferença.” – pg 24); “….Reparemos, pois: está tudo aí e nada se repete. No ato de reparar a coisa se dá como se colocássemos uma lente sobre esse invisível que a gente desconsidera e trata em bloco, como se fosse mesmo um bloco só, de igual conteúdo, formado pelo conjunto de dias….Cada dia é sempre uma estreia e uma despedida. Um gesto, é sempre a primeira e a última vez que o fazemos.” – pg 25).
    Também me atento as conversas alheias..rsrs….
    Fiquei imaginado a sua reação….rssrr… outsider…
    Essa “entrevista” me pareceu mais uma conversa descontraída, de quem senta no boteco e fala sobre a vida e eu, claro, fazendo parte da roda..rsrss…
    Espero subir mais vezes e partilhar de outras conversas como esta.
    Salve!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s